Sempre tive medo de me entregar ao amor. Na verdade, tive medo de ser amada e por isso nunca me permiti ser conquistada. Sempre amei meus amores platônicos, pois desta forma não precisaria inventar mecanismos para fugir deles. Sempre tive a certeza real de que meus amores jamais seriam correspondidos, e isso me fez muita falta. Claro que apenas hoje confesso essa falta, e às vezes, na maior parte do tempo continuo a dizer que não quero ser amada mesmo. Acredito realmente que o amor é um sentimento que está presente apenas no mundo das idéias e jamais poderá ser alcançado pelo mundo dos sentidos, e acreditando religiosamente nesta afirmativa platônica, não vejo motivos para perder o meu tempo cultivando relacionamentos ocos com as pessoas que teimam em cruzar o meu caminho.
Quem me conhece direito sabe que eu tenho uma vocação especial para sofrer, levo a sério a máxima que diz que o sofrimento enobrece o homem, e desta forma costumo imaginar quantas das tantas pessoas que passaram pela minha vida compartilhavam deste mesmo pensamento platõnico, quantas conversas perdidas, quantas noites de insônia poderiam ter sido divididas a contemplar a imensidão do universo, quantas..., tantas,....
Hoje mais uma vez sinto-me interessada por alguém. No começo estava feliz com as possibilidades de impossibilidades, mas hoje já não tenho certeza. Ainda não estou pronta para me dividir, não sei se estarei um dia, acredito mesmo que já fui partida em tantos pedaços que restam apenas partículas indivisíveis de mim. Só poderei descobrir com o tempo. E este tempo não posso comandar.
Beijos.
Lembro-me remotamente que um dia sonhei sonhos de amor, de um amor doce e puro que de certa maneira conduziu toda a minha experiência de proximidade com o outro de maneira geral. Hoje não sei se essa lembrança é verdadeira ou se ela é apenas um reflexo de minha saudade infantil de um amor infantil que teve seus caminhos ceifados pelo preconceito e por uma falta de excrúpulos que ainda não sei se sou capaz de transcrever aqui. Começarei pelas minhas recordações da infância.
Houve uma época em que eu fui tão feliz que acreditava estar vivendo em mundos paralelos onde a porta de conexão era o amor que eu sentia quando ouvia aquele assovio pelas ruas da pacata cidadezinha de Cardeal da Silva, município de Entre Rios, Bahia. O dono do assovio era Romenil, ou apenas Dindo, um dos meninos da cidade, meu grande amor de infância e adolescência. Esse era o anúncio de que ele estava me vendo e que pensava em mim. Aquele assovio causava em mim um reboliço interno tão intenso que me projetava de qualquer lugar que eu estivesse para o pé e amêndoas perto da casa de Tia Glorinha, onde costumávamos todos nos escondermos, descansarmos ou apenas passar o tempo. E lá naquele tão pequenino espaço, o meu mundo era infinitamente maior que todas as ruas de todas as cidades. A inocência das brincadeiras na Prefeitura, o desajeitado primeiro beijo, a descoberta do sentimento ainda não tocado pelo pecado. Pena ter sido assim. Ah, como passei anos de minha vida punindo a minha falta de pecados. Queria mesmo era eu ter pecado muito, teria sido bem menos doloroso do que ter sido violentada pelo pecado do outro.
Por hoje não tenho como escrever mais, no entando voltarei a contar a história do bicho papão que ainda pesegue meus sonhos assim que tiver condições.
Hoje à tarde na hora do almoço não tinha nenhuma comida pronta em casa, e na verdade pouca coisa havia para ser feita. Meu filho chegou da escola e desta vez não foi pra casa do pai, onde ele almoça quase todos os dias. Fiquei sem sabe o que fazer, mas como tinha ovos e linguíça, e ele adora omelete, resolvi preparar uma bem caprichada pra ele. Fiz um pouco de macarrão parafuso que tinha sobrado do almoço que minha mãe fez quando esteve em Salvador, e coloquei na água um caldo de carne pra dar gosto. Arrumei tudo num prato bem decorado, escrevi o nome dele com catchup, enfeitei com queijo ralado, enrolei os talheres, coloquei o prato na bandeja de copos da casa e levei pra ele no quarto. Quando meu filhote viu aquela bandeja, já me abriu aquele sorriso, quando experimentou, me olhou bem no fundo dos olhos e disse: " - Mamãe, só eu tenho uma mãe que sabe fazer essa comida maravilhosa, meus coleguinhas não tem uma mãe que faz comida só pra eles, não. E só eu tenho uma mãe linda, bonita e maravilhosa como você. Me dê um abraço bem forte e um monte de beijos. " Será que existe recompensa maior em fazer as coisas com amor??? Mesmo que se tenha poucos recursos materiais, recursos amorosos jamais hão de faltar.
Te amo meu filho. Muito mais dos que a soma de todas as estrelas multiplicadas por todas as gotas do mar.
Minha vida mudou. E como. Não lembro bem quando tudo começou, mas a cada dia, me certifico da nova mulher em que me transformei. Perfeita??? Ainda estou longe de ser, no entanto, confiando na eternidade, ainda tenho tempo para aperfeiçoamentos. Começo agradecendo a cada pessoa que contribuiu positivamente com a costrução desta nova mulher. As contribuições negativas que tornaram-se positivas, eu relato posteriormente. Agradeço ao meu filhote Max Gabriel, a minha prima amada Yasmine, a minha vizinha Amor Zuleide, André Luís, Áurea Virgínia, Antônio Paulo, Sr. Castro, Melissa, Luciana Ventura, Daniela, Pró Jacé, e tantos outros...
Graças a estas pessoas que depositaram em mim a confiança de transmitir um pouco do seu legado, estou aqui hoje, viva e cheia de esperanças.